terça-feira, 20 de abril de 2010

Indígenas amazônicos desenvolvem calendários próprios.

Habitantes da região se guiam pelos ciclos da natureza.
Comemorado nesta segunda (19), Dia do Índio não foi incluído.
 
No noroeste da Amazônia, indígenas nas proximidades do Rio Negro desenvolvem seus próprios calendários obedecendo a questões ligadas aos ciclos da natureza. Nos últimos anos, esses povos transformam sua maneira de medir o tempo em objeto de pesquisa. O investimento em estudo sobre a cultura local não impede as aldeias de estarem habituadas ao calendário gregoriano, que é utilizado na maior parte do mundo e comemora dia 19 de Abril o "Dia do Índio".
 
Comunidades da Acimet apresentam protótipo de calendário em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. (Foto: Gabriel Cortes / ISA / Divulgação)

Apesar de festejarem a data, institucionalizada no Brasil pelo presidente Getúlio Vargas na década de 1940, os indígenas não a incluem em seus próprios calendários, de acordo com o antropólogo Aloisio Cabalzar, do Instituto Socioambiental (ISA). "Comemorar o Dia do Índio é um fato mais recente se comparado à tradição de cada tribo com seus calendários. A data é mais para a sociedade não indígena mesmo", diz ele, que começou a estudar e desenvolver projetos sobre os calendários indígenas, entre outras atividades, desde 2005.

Sua base de estudos fica em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, que recebeu na semana passada o seminário Manejo do Mundo, reunindo indígenas de diversas etnias para debater questões relevantes para as comunidades do Rio Negro, como as pesquisas envolvendo calendários próprios. A cultura de dividir os períodos do ano de acordo com as mudanças de constelações é passada de geração a geração, mas apenas nos últimos anos ganhou status de objeto de pesquisa, segundo Cabalzar.

Por meio do trabalho de voluntários, chamados de agentes indígenas de manejo ambiental, os calendários das tribos vão, aos poucos, tomando forma no papel. "Temos feito pesquisas com eles nas escolas, com a ajuda dos mais velhos, para registrar os calendários. São jovens que terminaram o ensino medio e fazem diários anotando sobre dados sobre os calendarios", diz Cabalzar.

A maior parte dos calendários é representado por círculos que consideram ciclos naturais como a agricultura, as cheias dos rios e as chuvas. Mas a variação mais importante é a mudança de constelação. A primeira delas, nas comunidades próximas ao Equador, seria a de Jararaca.


O começo do ano seria correspondente ao período de enchente durante a constelação de Jararaca, que equivale aos meses de novembro e dezembro do calendário gregoriano. Mas as datas não são fixas e o calendário pode ser mudado se a cheia adiantar ou atrasar, por exemplo, o que torna mais complexa a medição do tempo nos sistemas indígenas. "Eles podem variar bastante de acordo com o povos", diz Cabalzar. "Outras tribos na Amazônia também desenvolvem seus próprios calendários. Só no Rio Negro existem 28 comunidades diferentes, considerando a Colômbia, estudando isso."
 
Reunindo povos tukano, desana, miriti-tapuia, yohopda e hopda, a Associação das Comunidades Indígenas do Médio Tiquié (Acimet) já desenvolve estudos sobre seus calendários há alguns anos e apresentou um exemplo de desenho na semana passada, em São Gabriel da Cachoeira. Já a Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa), que abrange povos tukano orientais, aruaki e macu, estuda o assunto há mais tempo. Um dos calendários desenvolvidos por eles é dividido em três círculos principais. O primeiro deles, no centro, considera os rituais de passagem, como benzimentos. O segundo representa o calendário agrícula, e o teceiro inclui períodos de pesca, caça de animais e coleta de insetos.
 
Calendário Indígena considera fenômenos naturais. Círculo central considera rituais, e os outros dois organizam os períodos de acordo com a agricultura, a caça e a pesca. (Foto: Acero / ISA / Divulgação)

Fonte: Globo Amazônia

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